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04/11/2006 - PARA MARATONISTAS, A MENTE É TUDO !!

Christopher Clarey em Boston

Apesar de todas as inovações tecnológicas que apimentaram a cobertura da televisão esportiva, desde o replay instantâneo até a câmera no capacete, nenhum maníaco por tecnologia criou um microfone para a mente.

Tal aparelho seria particularmente útil para a maratona. O esporte está se aproximando do final da temporada com a grande corrida na cidade de Nova York no domingo (05/11) e competições significativas no Japão nas próximas semanas. A maratona é um desafio clássico, cujo conceito e aura são freqüentemente mais atraentes do que a realidade: os corredores se apertam na largada e depois ficam correndo por quilômetros sem fim.

Imagine, porém, como seria muito mais interessante se pudéssemos ouvir o diálogo interno dos principais corredores, como Deena Kastor ou Paul Tergat, por trás de seus rostos sem expressão. A maratona dá aos praticantes um tempo muito maior para pensar do que os eventos esportivos em geral. "Acho que, em nosso nível, 90% é o cérebro; o corpo realmente não é nada. Você pode ter muitas conversas malucas consigo mesmo", disse em entrevista telefônica Lídia Simon, ex-campeã mundial e medalha de prata olímpica da România.

De acordo com Simon e seus colegas, há várias formas de ludibriar a mente que ajudam a resistir quando a dor começa. Uma delas é usar o lado direito do cérebro, criativo, contra o lado esquerdo lógico do cérebro, que insiste que você pare com essa maluquice. O lado direito pode criar distrações inteligentes, como imaginar que o corredor suado que está vários metros a sua frente é um imenso imã puxando você.

Jeff Galloway, ex-corredor mundial de distância que virou autor, certa vez escreveu que coletava "vários milhões de moléculas de oxigênio" na noite anterior a uma maratona e armazenava-as em um saco plástico de sanduíche, que ele prendia ao short.

Durante os últimos estágios da corrida, quando a dificuldade física começava, ele abria o saco aparentemente vazio e espremia na frente da boca. "Um ou duas baforadas duravam 100 ou 200 metros", escreveu, acrescentando que se maravilhava com a expressão de seus rivais.

Kastor, uma das favoritas em Nova York depois de vencer em Londres em abril, é mais inclinada a usar mantras nos últimos estágios da corrida. Nas Olimpíadas de 2004, em Atenas, onde ela surpreendeu vencendo uma medalha de prata, ela repetia "momentum" para si no calor.

"Minha estratégia de corrida era começar devagar e terminar forte; eu queria que o momentum continuasse crescendo", disse ela. "Parecem palavras triviais, mas quando você treina com elas, parece que a associação torna-as muito mais poderosas."

No ano passado, logo antes da maratona de Chicago, seu treinador, Terrence Mahon, deu-lhe um cartão para ler: "Hoje, você precisa se definir como maratonista."

"Esse foi meu mantra: 'Defina-se'", disse Kastor. "Quase perdi minha definição nos últimos quilômetros."

Ela persistiu e terminou vencendo pela primeira vez e será uma das favoritas em Nova York pela primeira vez, onde chega com uma música de Madonna, "I Love New York", como arma. "Uma das frases da música é: 'Se você não agüenta o calor, então saia da minha rua'", disse ela. "Esse tem sido meu mantra desta vez: ser dona da rua, poder próprio. Simplesmente traz de volta o calor do treinamento, o esforço com os parceiros de treino e a batida da música saindo do carro que vinha atrás de nós trazendo fluidos. Traz de volta a lembrança de quanto trabalho entra nisso."

Paula Radcliffe, campeã mundial e detentora do recorde feminino que está de licença maternidade e deve parir em janeiro, algumas vezes recorre à matemática mais básica para manter sua mente no presente e livre de negatividades. Ela sabe que, se contar até 100 lentamente três vezes, terá corrido uma milha, ou 1,6 km.

"Isso faz minha mente parar de pensar que tenho mais 10 km ou seja lá o que for", disse certa vez ao The Times of London.

Essa abordagem simples pode ser surpreendente para corredores amadores, convencidos de que os profissionais também são superiores em táticas psicológicas. Nicholas Thurlow, 41, amador americano que recentemente completou sua 13ª maratona, vê-se contando os passos nos últimos estágios das maratonas, chegando até 500 e repetindo seu próprio mantra, transmitido pelo irmão: "A dor é inevitável; o sofrimento é opcional."

"Essas palavras sempre me fizeram continuar", disse Thurlow.

Maratonistas de elite, como Stephen Kogora, queniano que vai participar da corrida em Nova York, são mais inclinados a raciocinar consigo mesmos em vez de se distraírem quando a "parede" do corredor aparece.

"Penso no treinamento, nas horas que corri", disse Kiogora. "Lembro de casa e quando faço isso me esforço muito. Mas o que tento me dizer quando sinto muita dor é que os outros estão sentindo o mesmo, então tenho que me segurar a esperar para ver. Se você se sentir sozinho lá fora, talvez desanime, mas se você pensar nos outros sentindo o mesmo, ajuda." A maior parte dos maratonistas quebra os 42 km de corrida em pedaços menos assustadores. Simon pensa em 5 km por vez.

"Se vejo desde o início que tenho que ser forte para 40, é difícil demais", disse ela.

O maratonista japonês Kenji Kimihara, quando estava se sentindo pressionado nas Olimpíadas do México em 1968, passou a pensar apenas em chegar até o próximo poste. Quando conseguia isso, procurava ver o próximo e depois o outro até acabar com a medalha de prata.

Outros usam o que vêem ao longo do caminho. Joan Benoit Samuelson venceu a primeira maratona olímpica feminina em 1984 em Los Angeles. Ela se lembra de, quando estava atravessando um trecho normalmente cheio da estrada bloqueada para a corrida, riu para si mesma pensando que poderia dizer aos netos que um dia tinha corrido sozinha na Los Angeles freeway.

Alguns ultra-maratonistas, a raça pós-moderna que faz distâncias de até 560 km em uma única sessão sem dormir, vêem coisas que nem existem. Dean Karnazes diz que, durante a edição de 2004 de uma corrida de 217 km no Vale da Morte na Califórnia, ele viu um velho mineiro cruzando a estrada com uma panela de ouro na mão, pedindo água.

Era uma alucinação. Karnazes teve ampla oportunidade de deixar sua mente vagar nos últimos dois meses quando embarcou em uma tentativa de correr 50 maratonas em 50 dias consecutivos em 50 Estados. Na manhã de sexta-feira, ele tinha completado 47 das 50 e planejava terminar sua turnê em Nova York no domingo.

Karnazes de fato não parece ser desta terra, apesar de certamente correr sobre ela. Ele escreveu seu livro "Ultra Marathon Man" depois de levar um gravador aos treinos e capturar seus pensamentos entre respirações.

Kastor evita ditar durante seu treinamento, mas sonhou muito com a maratona de Nova York usando técnicas de visualização.

"Em meus 200 km de treinamento semanais, eu me via correndo no Central Park com três meninas ou quatro, todas juntas se esforçando para vencer", disse ela. "Vai ser preciso persistência e entender que será uma luta; aceitar isso faz parte da batalha."

Acatar a dor que vem com tal desafio parece ser uma opção melhor do que tentar se distrair dela. Qualquer que seja a estratégia, a parte mais intrigante do teste de persistência favorito do mundo não é como os corpos dos corredores permitem que terminem em quase duas horas, mas como suas mentes os capacitam para isso.

Agora, se os tecnólogos pudessem criar uma forma de ouvir essas mentes trabalhando.

Tradução: Deborah Weinberg

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