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26/09/2005 - RECORDE EM SANTOS E RAÇA EM CAMPOS !!

... Depois de um pneu furado em Goiânia e de uma intoxicação alimentar em Belo Horizonte, você se pega pensando no tamanho da meta que se impôs... Seria factível para mim completar uma etapa do Troféu Brasil de Triathlon em menos de 1:30:00?

Treinei como o diabo... Mesmo nos dias de chuva ia para o Ibirapuera e corria quase uma hora embaixo da Marquise. Quando pedalava, seguia concentrado. Fazia todas as transições e respeitava os intervalos planejados pelo Diego, meu treinador, milimetricamente. Passei a nadar amarrado à escada da piscina de modo a simular uma "piscina" infinita, onde não há margem para você respirar...

... Para percorrer os 135km da prova de aventura de Campos do Jordão, levamos uma equipe que era composta por 8 atletas, sendo 5 corredores, 2 reservas e eu, o ciclista. Apesar da imensa responsabilidade na minha equipe, cheguei à Campos do Jordão relaxado. Já tinha feito trilhas de Moutain Bike com relevos bem difíceis e não tinha vergonha nenhuma em descer da bike para empurrar caso precisasse.

Antes de irmos dormir, ainda revisei com a Sandra, capitã da equipe, a altimetria dos trechos de corrida e do meu percurso de ciclismo. Sabia, por experiência própria, a importância do planejamento da prova...

... Fiz questão de ir por São Vicente para poder ver o litoral de ponta a ponta. O tempo naquela semana inteira havia sido horrível e isso podia ter "mexido" demais com o mar, como de fato ficou comprovado. Mas eu não ia alterar meu planejamento para a prova. 1:30:00 significa:

1. Nadar 750 metros em 20 minutos

2. Pedalar sempre acima dos 30km/h, para obter um tempo de 40 minutos

3. Correr sempre acima dos 10km/h, ou 6min./km, para somar mais 30 minutos

Só precisava ter em mente também que ninguém pára o cronômetro para que você faça a transição, ou seja, em algum trecho da prova eu precisava garantir minutos importantes para que eu pudesse alcançar minha meta...

... 24/09/2005, 6:36am, a Sandra Lopez larga e a equipe a segue no carro de apoio.

As baterias de ciclismo foram definidas. Os quase 90 ciclistas seriam divididos em dois grupos, um que largaria às 9:00 e outro às 10:00 para terem seus tempos somados aos da equipe. A sorte quis que eu estivesse na primeira bateria...

... Estava física e mentalmente bem em Santos. Nada daria errado, mas no sábado à noite a chuva começou a cair e fui dormir preocupado... Se o asfalto estivesse molhado o meu tempo de ciclismo poderia ser comprometido...

Mas o domingo nasceu cinza, apenas cinza e lá fui eu para a área de transição... Arrumei caprichosamente todas as minhas coisas na área de transição, tênis, boné, capacete, óculos escuros, sapatilha, bicicleta, ...

Calcei minha roupa de borracha e entrei pisando duro na areia... As ondas estavam altas... O mar nitidamente puxava para a direita e a prova seguiria no sentido contrário.

Entrei no funil de largada e fiquei junto à faixa. Soou a buzina e levantaram a faixa... Todos saíram em disparada para o mar... Atrás de mim alguém chegou a me empurrar, mas minha concentração era inabalável. “Nada vou ganhar ao pisar primeiro dentro do mar...”. Tenho que manter minha pulsação baixa para poder nadar bem.

Nadei contra a arrebentação e era invariavelmente tragado pelas grandes ondas. Mas logo superei a arrebentação, contornei a bóia e comecei a nadar contra a corrente em direção à segunda bóia. Acompanhava o pelotão de perto. Contornei a segunda bóia e havia chegado a hora de dar os "jacarés" aproveitando as ondas, mas o mar caprichosamente puxava para o fundo.

Ao colocar os pés em terra firme, a sensação era de "despir" o mar que insistia em manter-me dentro dele... E com a mesma força com que me livrei das águas abri o velcro da roupa e livrei meus braços enquanto corria para a área de transição. Destaquei a pulseira da fase de natação e entrei na área de transição. Antes de chegar ao meu box, uma rápida olhada no cronômetro: 16:35...

... Antes da largada da primeira bateria de Moutain Bike tentei me comunicar com a Sandra, mas sem as Estações de Rádio Base colocadas durante a temporada de inverno, os celulares não funcionam muito bem em Campos. De qualquer forma, peguei o telefone do responsável pela equipe médica antes da largada. Guardei o celular no bolso da bike e aguardei pelo sinal.

Um último comunicado da organização: "O trecho foi escolhido e sinalizado por um piloto de Motocross da região".

A buzina soou e eu larguei forte sobre o cascalho... Fiz a primeira curva à direita e escapei de qualquer incidente no funil dividido com outros 44 ciclistas. Curva a esquerda e começa a primeira subida. À minha frente, um ciclista teve problemas na relação de marchas, o que me obrigou a desviar rapidamente para o lado. Não se deve fazer isso sobre o cascalho e o resultado não podia ser diferente: deitei no chão. Levantei e recolhi a bike para o canto e ao subir, caí novamente.

Respirei fundo.

Montei novamente e pensei: "agora que sei que estou em quadragésimo quinto, vamos tratar de melhorar isso...". Subia martelando os pedais e logo avistei o penúltimo colocado... Fui comendo um a um: quadragésimo quarto, quadragésimo terceiro, quadragésimo segundo... A brincadeira ficava interessante a cada segundo... Trigésimo nono, trigésimo oitavo.

À minha frente uma imensa poça de lama. Não quis tentar as beiradas. Fui pelo centro. De súbito estava ao contrário, olhando para trás e mergulhei na lama. A poça era funda e debaixo daquela água havia uma pedra escondida a bike bateu e virou ao contrário me jogando para o lado...

Minha sapatilha ficou imprestável, com o barro acumulado não conseguia mais "clipar" o pé no pedal e passei a pedalar sem usar a força da puxada.

Saí do trecho de mata fechada e me deparei com uma estrada de terra. Rapidamente desci da bicicleta e limpei com minhas ferramentas a base da sapatilha. Clipei o pé e acelerei novamente. Até que de repente entrei em uma pousada. "What the fuck?!". Tinha errado o caminho!!! Onde estava a sinalização?! Olhei incrédulo à minha volta e não sabia mais por onde seguir.

Ouvi um barulho na mata e pude ver, logo ao lado a trilha onde estavam os ciclistas. Passei por baixo do arame farpado, puxei a bicicleta e entrei novamente no percurso... Estava novamente nos calcanhares do penúltimo colocado quando deslizei na lama... Fiz força no pedal, joguei o pneu para a direita, para a esquerda, mas atolei e novamente caí...

Por mais besta que tenha sido esta queda em relação à anterior, as rodas acabaram entortando um pouco... Tive de soltar o freio para que ele não pegasse naquele giro em forma de 8 e novamente com a sapatilha cheia de barro, não podia andar o quanto gostaria...

No meio do mato, com lama até o pescoço, olhei para o ciclo-computador na esperança de ver o inferno ter fim proximamente. Amaldiçoei tudo a meu redor ao ver que não tinha percorrido 5km´s ainda.

Precisava de ajuda...

Tentei ligar para a Sandra para saber o que fazer, mas ninguém atendia o celular... Liguei então para alguém que poderia, mesmo à distância mergulhar na minha cabeça e extrair meu avesso...

"Fausto?". Enquanto sofria empurrando a bicicleta tentava falar com ele...

Palavras sábias como sempre: "Esquece a medalha, esquece a prova, curta o caminho"...

O trecho de mata fechada acabara... Olhei em volta e Campos do Jordão estava pequena lá embaixo... "Fau, tenho que desligar... Falamos depois...". Excuse me while I´m kiss the sky!...

... Deitei no chão, em frente ao box, um fiscal do Triathlon rapidamente puxou a roupa de borracha. Calcei as sapatilhas, coloquei o boné, capacete e óculos escuros. Desajeitadamente, mas o mais rápido que pude, corri com aqueles taquinhos até a linha de transição... "30 por hora, 30 por hora...".

Clipei e segui girando no "volantinho". Fazia parte da minha estratégia girar um pouco para ganhar fôlego novamente. Meu giro estava treinado para ser maior que 30km/h e realmente deu certo. Meus batimentos baixaram e a velocidade estava acima de 32km/h.

Deixei o canal 3 e fui seguindo na praia. Canal 4, Canal 5, pronto, *Clack*, *Clack*, *Clack*, fui subindo as marchas, uma a uma e comecei a pedalar forte, comecei a ultrapassar alguns ciclistas. Viramos para o porto no canal 6 e ao chegar lá entendi que era a hora de tomar meu cartão amarelo. Sim, cansei de ser bonzinho!

No Fast Triathlon é proíbido pegar vácuo sob pena de tomar um cartão amarelo. Dois cartões amarelos significam desqualificação.

Entrei no vácuo de um ciclista e começamos a formar um pelotão. Chegamos a romper a barreira dos 40km/h, mas a alegria não durou muito. Logo o fiscal de prova nos flagrou e sinalizou o cartão amarelo. Hora de quebrar o pelotão e seguir contra o vento, de volta para a praia.

Entrei no canal 5 e olhei no relógio. Tinha certeza de que conseguiria! Fui me aproximando do canal 3 e pulei da bike centímetros antes da linha que separa a área de transição. Entrei apressado. Coloquei a bike nos box, joguei capacete, calcei tênis e corri. Sabia que tinha conseguido uma média superior à 30km/h. Uma olhadela no relógio e meu tempo total de prova era de 56:28. Soube depois, na divulgação dos resultados que minha média, mesmo contando com a transição e a aceleração e desaceleração da transição havia sido de 30,9km/h. Agora só faltavam 5km´s...

... Finalmente comecei a curtir a prova. Subia forçando, descia rasgando e passava pelos single tracks sem medo. Logo deveria alcançar novamente o pelotão.

Vinha descendo por uma estrada de terra bastante acidentada. Estava a cerca de 20km/h. Havia uma descida um pouco mais forte no caminho, desci e me deparei com uma pedra enorme.

O pneu frontal acertou a pedra em cheio e a bicicleta subiu a 90 graus ficando apoiada apenas na roda dianteira. Era como usar uma bicicleta para fazer salto com vara.

O tempo parou um instante.

Milhões de coisas passaram pela minha cabeça: "peso do corpo para trás", "mãe!", "cara#$%¨&*!!!", "curta o caminho", "acabou!"...

... O túnel estava bastante escuro, mas eu seguia correndo. Olhos fixos na luz. Já tinha passado por túneis na meia maratona do Rio de Janeiro e sabia que túneis eram abafados. Reduzi o ritmo e encontrei com Hermes. Ele disse: "Ali, do outro lado tem uma bike Cérvelo, igual à recordista do Tour de France esperando por você".

Tive a ousadia de contestar o Deus da Velocidade e disse: "Hermes, desculpe, mas isso vai ter que ficar para outro dia...", ainda tenho um IronMan para fazer.

Dei meia volta...

... Acordei olhando fixamente para a luz que agora era apenas o sol do meio-dia. Em minha espetacular capotagem caí dentro de uma vala aberta pela água na lateral do que vou convencionar chamar de pista de mountain bike (eu mato o cara que deixou um piloto de motocross escolher o caminho!). A bicicleta estava por cima de mim.

Fiquei imóvel mais alguns minutos tentando entender o mundo à minha volta... Nenhuma dor latejante, nenhum sangue, a não ser o de alguns ralados. Assustei um pouco ao olhar para o lado da minha cabeça e ver um líquido branco, mas era só um "power gel" que eu esmaguei com a queda.

Meu celular estava caído ao meu lado... Liguei para o responsável médico e expliquei a situação. A ambulância estaria me esperando um pouco adiante.

Continuei por lá, sem querer ou fazer forças para me mexer... Pela primeira vez na minha vida, via claramente a desistência diante dos meus olhos.

Mas meia hora se passou até que um ciclista da segunda bateria chegou até mim. Ele tirou a bicicleta de cima de mim e me ajudou a sair do buraco.

Ainda desnorteado, resolvi descer o morro empurrando a bicicleta.

O tempo passava e eu não encontrava a ambulância. O caminho terminou em uma das várias estradas de terra de Campos e lá seria seguro para pedalar. Subi na bicicleta para que pudesse chegar mais rápido à ambulância...

... Após uma hora de prova, dando tudo de si, seu corpo reclama e aqueles 5km´s finais de corrida não seriam fáceis. Sabia exatamente qual teria de ser meu ritmo para conquistar meu objetivo. Fiz a virada dos 2.500 metros e fui ultrapassado por 2 triatletas da minha categoria. Pensei em acompanhá-los, em ganhar deles. Mas voltei-me para mim mesmo e entendi que aquela prova era somente minha.

Segui no ritmo certo. No final, um sprint violento. Passei pelo pórtico. Travei o cronômetro. Respirei fundo por duas vezes e finalmente tomei coragem para olhar para o relógio:

1:24:41

EXPLODI!!! Comemorei muito com todos que conheciam meu objetivo e estavam ali para me ver... Minha mãe, meu pai, minha irmã e uma família de triatletas que já conheço e chamo de amigos. Depois foi a vez de comemorar com minha equipe e com o Armando, um dos lokobikers que apareceu para assistir.

Minha maior e suprema vitória estava ali... Aconteceu... Chegara a hora de planejar o Triathlon Olímpico (1.500metros - 40km´s - 10km´s) para 2006, não sem antes fazer alguns agradecimentos e uma menção muito especial...

... 5km´s e nada da ambulância. Sobe morro, desce morro, single track, vontade de matar a organização da prova e NADA, absolutamente NADA se via da ambulância.

Quer saber?!

CURTA O CAMINHO!

Não, eu não cruzei o rio de imediato, ao contrário, parei, tomei água, comi uma barrinha e só então continuei o caminho... Mais push bike e cheguei no topo de mais uma montanha... Respirei fundo e comecei a cantar... Frases de mais efeito sempre um pouco mais alto: "What you want, is what you got...", "And now you crossed that line, can´t come back...", "HOW YOU WANNA FEEL?!".

De repente abriu-se à minha frente um lindo caminho cinza... Era o trecho final... O trecho de asfalto... *clack*, *clack*, *clack*, as marchas subindo... Eu vou fazer meu sangue QUEIMAR, eu vou fazer meu sangue GRITAR!!! Cortei as avenidas do Capivari como um alucinado... Entrei para o trecho final e vi o fiscal de prova assustado, olhando para mim e pedindo para eu reduzir.

Eu precisava entrar para o pórtico de chegada.

Tsssssssssssssssssssss... Uma derrapada com o pneu traseiro, uma curva alucinante e a entrada no pórtico seguida do desabafo:

"PORRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!"

Havia conseguido completar o primeiro trecho de 31km´s.

Ainda havia o segundo de 4,8km´s que deveria ser feito após a chegada ao 15o posto de troca da nossa equipe. Conversei com eles e expliquei tudo o que havia acontecido.

Entendia que seria benéfico para a equipe, em termos de tempo, desclassificar-me, pois assim, eles pegariam o tempo do pior ciclista acrescido de 10 minutos.

Foram unânimes: se você está bem, vai lá e termina essa prova. Vamos prejudicar as equipes cujos ciclistas não tiveram a sua garra. Eles vão ter que engolir o SEU tempo com mais 10 minutos.

Larguei e rapidamente estava de volta... Fiz a transição, calcei o tênis e fomos correr o último trecho de pouco mais de 1km todos juntos...

Apesar de tentar, nenhuma palavra vai ser capaz de descrever todo o sofrimento, toda a alegria e todo o mix emoções de cada milésimo de cada uma dessas duas provas... Então seguem algumas imagens que podem ajudar a ilustrar tudo isso...

Seja a quebra de um recorde, seja uma última, mas carregada posição, sempre dedicarei isso a vocês, meus amigos, meus QUERIDOS amigos...

Mesmo que isso passe pela cabeça de vocês, NUNCA desistam, NUNCA!!!

Ricardo e KK o padrinho de vocês tá inteiro, não se preocupem!

Andréia, tú tá proibida de contar para a mama que eu apaguei!

Iris, Fabio, Sandra, ..., AMIGOS: Saudade de vocês!

Lokobikers: se não chover, estou dentro!

Família Trilopez: Amo vocês!

Vê... You know... ;)

A menção? Vai para a melhor triatleta que já conheci:

Déa, abaixo de 1:30 foi pra mim, mas 1:24:41 foi pra você! Tira logo esse gesso do braço e vai buscar seu Troféu de Triathlon! Quando você estiver no pódio, eu vou gritar de lá de baixo: EU JÁ SABIA!!!

Texto enviado pelo atleta Charles "Ferrari"


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